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O Poeta da Essencialidade
José Alcides Pinto
JORNAL DIÁRIO DO NORDESTE
Caderno Cultura, Fortaleza, Ceará
13 de Abril de 2003
Fabrício Carpinejar: crítico literário e poeta (Biografia de uma árvore, Escrituras, São Paulo, 2002).
Apaixonei-me pelo livro à primeira vista. O título é um achado raro. Imaginei a árvore nativa: galhos, tronco, raízes; carregada de flores, frutos, ninhos; insetos, luz, perfume; o canto das aves pousadas em sua copa; aves que voam e volteiam numa dança nervosa de galho em galho; em tudo a natureza mostrando sua beleza festiva.
Esta é a árvore do poeta Fabrício Carpinejar, a árvore de seus sonhos (e pesadelos?), a esbater-se em ritmos e metáforas.
Mas vamos ao livro, à sua linguagem criativa, nova sob todos os aspectos, e ao seu todo orgânico e singular; à sua metafísica e à sua física; à sua matemática leve e flexível na construção dos poemas: montagem, forma, estrutura, símbolo e signo, um sensualismo velado, contido, vazando por dentro das palavras: tegme, sêmen, resina, casca de árvore.
A poesia de Fabrício (sua poesia), não se confunde, não traz marca nem pegadas de ninguém; é fruto de seu talento, de sua ingênita genialidade. Ele escreve como quem medita: pensa, repensa, divaga, dá o salto e se lança no abismo da vida. Promove o diálogo consigo mesmo, como quem fala sozinho (e quem fala sozinho não fala só); não tem parceiro - objetos ganham contorno, ritmo, som, luz, cor, movimento e se transfiguram em palavras.
Poesia é mesmo como diz com clara lucidez nas orelhas do livro o crítico Vicente Franz Cecim: ´a literatura praticada como ontologia, a palavra praticada como vida´.
Para levar à frente a resenha e enriquecer o texto, roubo de Cecim este dístico de ouro roubado ao autor; roubado também por André Seffrin (in ´Carpinejar´, jornal O Pasquim 21# N.° 32de 2002). ´O pássaro é um vento orquestrado. / O pouso pesa o que foi voado´.
Em que poeta de sua geração encontraríamos versos tão belos assim? Não quero ( ou não posso) falar de outros livros seus que não conheço. Acompanho pelos releases, comentários, depoimentos sobre sua obra, toda ela premiadíssima. Seu reconhecimento já se faz presente no panorama da poesia nacional.
Por causa dessa Biografia de uma árvore, (autorizada pelos pássaros), (autorizada pelas raízes), (autorizada pelos frutos), como quer o autor, já me assaltam desejos de conhecer seus outros livros. Noto que Fabrício tem algo em comum com os poetas heróicos, essa coorte de bravos repatriada de si mesma, malditos, anjos iluminados, representada por Byron, Baudelaire, Poe, Lautréamont, Augusto dos Anjos, entre pouquíssimos outros.
Ele às vezes se exercita no poema em prosa, como fizeram os poetas acima citados, e destes tira efeitos os mais surpreendentes. A poesia não está no verso, nem este na poesia. A poesia não está. Acontece. Chega misteriosa e trágica e pousa como ´O Corvo´ no busto de Palas.
Fabrício Carpinejar, que anda ´no armazém da neblina, tenso,/sob ameaça do sol´, acordando a cúpula de pombas? Tem mais, e muito mais, não foi por acaso que citamos Lautréamont. Senão vejamos: ´Escutar minha respiração/ é conviver com o terror´. Carpinejar é ainda aquele que ´toma o vidro de vozes e retira o rótulo,/ apagando os sinais do veneno´. Ou se melhor quisermos, físico e sobrenatural: ´Meu rigor é ser invisível./ visitei cidades não estando nelas./ fui corrompido pela pureza´.
Com Pessoa, encontramos confluência - ninfas que se banham no mesmo lago: ´Metade do que sou inventei na infância;/ a outra metade, a infância tratou de inventar´.
As metáforas se sucedem e se enriquecem à proporção que os poemas tomam corpo: ´As diferenças nos assemelham,/ o único vizinho do mar é o abismo´.
Evoca e lembra Augusto dos Anjos nestes versos: ´Fundei meu mundo para contar/ com a possibilidade de afundar nele´. Sim, porque a dor está nele, no âmago do ser, como ´O paletó surrado traz um garfo no forro´.
Sagrado e profano a um só tempo: a presença de Deus está nos seus versos e perdida nos reversos: ´Deus, peço tua demissão por justa causa./ Não saberás se falo sério ou se estou rindo./ vou indo. Na incerteza, o réu é sempre absolvido´. Mas ´A fé sobrevive com distrações./ Quem não dormiu em meio a uma Ave-Maria,/ pulou trechos do Pai-Nosso, procurou objetos perdidos/ com Salve-Rainhas?´ A contradição é própria dos grandes poetas.
Uma das suas metáforas mais fortes e sensíveis encontra-se à pág. 99, é a da evocação da morte do pai, e encontra-se em forma de bilhete, datado de Porto Alegre, 24 de outubro de 2045.
´Não sei reconstruir os últimos dias de meu pai. Sua infância morreu separada do resto dos anos. Há muito não o via, viveu longe mesmo perto. Passou a vida costurando poemas em um terno usado. Tinha medo que alguém apagasse seus escritos, ou que Deus o inundasse de esquecimento. Ele se nomeava primogênito do mar, e intitulou seus bordados de Novíssimo Testamento. Morreu rindo, lembro que cobri seu rosto com o paletó de seus versos. Era o início da Terceira Guerra.´
A profecia do poeta e sua visão premonitória se cumprem. Aí está a Terceira Guerra em toda a sua crueldade. Nada mais nos resta fazer, a não ser ´apiedar-se da vocação fúnebre do guarda-chuva´, como vai encerrando este livro de prêmio, o poeta e o vidente de Caxias do Sul. A posteridade bate-lhe às portas, e é só dizer como Bandeira: ´ - Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.´
José Alcides Pinto
Ficcionista, poeta e crítico literário

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