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Fabrício Carpinejar

   
   As Solas do Sol
 
   Um Terno 
   de Pássaros ao Sul

 

   Terceira Sede
 
   Biografia de uma Árvore
 
   Cinco Marias
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

      

Textos   

Poemas do livro As Solas do Sol

Primeira colina - poema 8

Reconheci a antigüidade do rosto
pela fumaça apressada do prado
- ela encorpava,
ardilosa,
uma cobra que endurece
o couro
na estocada da faca.

Oitava colina - poema 1

As laranjas prematuras,
lâmpadas queimadas,
boiavam no esgoto
do pátio,
com o suco parado,
isoladas da eletricidade. 

Nona colina - poema 3

A vida amou a morte
mais do que havia
para morrer.

 

 

sobe

 

 

 

 

Poemas de Um Terno de Pássaros ao Sul

Fragmento I


Pouco crescemos 
no que aprendemos,
o sabor 

de um livro antigo
está em jovem 
esquecê-lo.

Eu alterei
a ordem do teu ódio.
Fiz fretes de obras 

na estante.
Mudava os títulos 
de endereços

em tua biblioteca
e rastreavas, ensandecido,
aquele morto encadernado 

que ressuscitou
quando havias enterrado 
a leitura,

aquele coração insistente,
deixando atrás uma cova 
aberta na coleção.

Sou também um livro 
que levantou
dos teus olhos deitados.

Em tudo o que riscavas,
queria um testamento. 
Assim recolhia os insetos 

de tua matança,
o alfabeto abatido 
nas margens.

Folheava os textos,
contornando as pedras 
de tuas anotações. 

Retraído, 
como um arquipélago
nas fronteiras azuis.

Desnorteado,
como um cão
entre a velocidade

e os carros.
Descia o barranco úmido
de tua letra,

premeditando 
os tropeços.
Sublinhavas de caneta,

visceral, 
impaciente com o orvalho,
a fúria em devorar as idéias,

cortar as linhas em estacas da cruz,
marcá-las com a estada.
Tua pontuação delgada,

um oceano 
na fruta branca. 
Pretendias impressionar 

o futuro com a precocidade.
A mãe remava 
em tua devastação,

percorria os parágrafos a lápis.
O grafite dela, fino, 
uma agulha cerzindo 

a moldura marfim.
Calma e cordata,
sentava no meio-fio da tinta,

descansando a fogueira
das folhas e grilos.
Cheguei tarde

para a ceia.
Preparava o jantar 
com as sobras do almoço.

Lia o que lias, 
lia o que a mãe lia.
Era o último a sair da luz.

 

 

sobe

 

 

 

 

 

Poema do livro Terceira Sede

Décima elegia

Só na velhice o vento não ressuscita.
A água dos olhos entra na surdez da neve
e escuta a oração do estômago, dos rins, do pulmão. 

O sono desce com a marcha dos ratos no assoalho.
Tudo foi julgado e devemos durar nas escolhas.

Só na velhice os grilos denunciam o meio-dia.
O exílio é na carne.

Esmorece o esforço de conciliar a verdade 
com a realidade.
A neblina nos enterra vivos.

Só na velhice o pó atravessa a parede da brasa,
o riso atravessa o osso.
Deciframos a descendência do vinho.

Os segredos não são contados 
porque ninguém quer ouvi-los.
O lume raso do aposento é apanhado pela ave
a pousar o bule das penas na estante do mar. 

Só na velhice acomodo a bagagem nos bolsos do casaco.
O suspiro é mais audível que o clamor. 

Recusamos o excesso, basta uma escova e uma toalha.

Só na velhice os músculos são armas engatilhadas. 
O nome passa a me carregar.

É penoso subir os andares da voz, 
nos abrigamos no térreo de um assobio.
Pedimos desculpa às cadeiras e licença ao pão.

O ódio esquece sua vingança.
Amamos o que não temos.

Só na velhice digo bom-dia e recebo
a resposta de noite.
Convém dispor da cautela e se despedir aos poucos.

Só na velhice quantos sofrem à toa
para narrar em detalhes seu sofrimento. 

O pesadelo impõe dois turnos de trabalho.
Investigo-me a ponto de ser meu inimigo.

Sustentamos o atrito com o céu, plagiando 
com as pálpebras o vôo anzolado, céreo, das borboletas.

Só na velhice há o receio em folhear edições raras
e rasgar uma página gasta do manuseio. 
Embalo a espuma como um neto.

Confundimos a ordem do sinal da cruz. 
O luto não é trégua e descanso, mas a pior luta.

Só na velhice a forma está na força do sopro.
Respeito Lázaro, que a custo de um milagre
faleceu duas vezes.

O medo é de dormir na luz.
Lamento ter sido indiscreto
com minha dor e discreto com minha alegria. 

Só na velhice a mesa fica repleta de ausências.
Chego ao fim, uma corda que aprende seu limite
após arrebentar-se em música.
Creio na cerração das manhãs.
Conforto-me em ser apenas homem. 

Envelheci,
tenho muita infância pela frente.

 

 

sobe

 

 

 

 

 

Poema do livro Biografia de uma árvore

Ouvidos de orvalho


Na eternidade, ninguém se julga eterno.
Aqui, nesta estada, penso que vou durar
além dos meus anos, que terei 
outra chance de reaver o que não fiz. 
Se perdoar é esquecer, me espera o pior:
serei esquecido quando redimido.

Não me perdoes, Deus. Não me esqueças.
O esquecimento jamais devolve seus reféns. 

A claridade não se repete. A vida estala uma única vez.

O fogo é uma noz que não se quebra com as mãos.
A voz vem do fogo, que somente cresce se arremessado. 
Não há como recuar depois de arder alto. 
Fui lançado cedo demais às cinzas.

Somos reacionários no trajeto de volta.
Quando estava indo ao teu encontro, 
arrisquei atalhos e travessas desconhecidas. 
Acreditei que poderia sair pela entrada.
Ao retornar, não improviso. 

Minha conversão é pelo medo, 
orando de joelhos diante do revólver,
sem volver aos lados,
na dúvida se é de brinquedo ou de verdade.

O vento faz curva. Não mexo nos bolsos, 
na pasta e na consciência,
nenhum gesto brusco de guitarra, 
a ciência de uma mira
e o gatilho rodando próximo
do tambor dos dentes. 

Derramado em Deus, junto meu desperdício. 

Vou te extraviando no ato de nomear.
Melhor seria recuar no silêncio. 

Cantamos em coro como animais da escureza.
Os cílios não germinaram. 
Falta plantio em nossas bocas, vegetação nas unhas,
estampas e ervas no peito. 
Suplicamos graves e agudos, espasmos e espanto,
compondo esquina com a noite. 

Cantar não é desabafo,
mas puxar os sinos 
além do nosso peso,
acordando a cúpula de pombas. 

Somos fumaça e cera,
limo e telha,
névoa e leme.
O inverno nos inventou.

Não importa se te escuto 
ou se explodes meus ouvidos de orvalho: 
morre aquilo que não posso conversar? 

Ficarei isolado e reduzido, 
uma fotografia esvaziada de datas. 
Os familiares tentarão decifrar quem fui 
e o que prosperou do legado.
Haverei de ser um estranho no retrato
de olhos vivos em papel velho. 

Escrevo para ser reescrito. 
Ando no armazém da neblina, tenso, 
sob ameaça do sol. 
Masco folhas, provando o ar, a terra lavada.
Depois de morto, tudo pode ser lido. 

Vejo degraus até no vôo. 
Tua violência é a suavidade.
Não há queda mais funda
do que não ser o escolhido, 
amargar o fim da fila, 
ser o que fica para depois,
o que enumera os amigos 
pelos obituários de jornal, 
o que enterra e se retrai no desterro, 
esfacela a rosa ao toque
na palidez das pétalas e velas, 
vistoriando cada ruga 
e infiltração de heras entre as veias, 
nunca adulto para compreender.

Não há nada de natural na morte natural.
Divorciar-se do corpo, tremer ao segurar
as pernas, acomodar-se no finito
de uma cama e deitar com o tumulto 
que vem de um túmulo vazio.

sobe

 

 

Poemas do livro Cinco Marias

Chega um momento
em que somos aves na noite,
pura plumagem, dormindo de pé,
com a cabeça encolhida.
O que tanto zelamos
na fileira dos dias,
o que tanto brigamos
para guardar, de repente
não presta mais: jornais, retratos,
poemas, posteridade.
Minha bagagem
é a roupa do corpo. 

... 

Eu fui uma mulher marítima, 
as rugas chegaram antes. 

Eu fui uma mulher marítima, 
paisagem e pêssego, 
uma faísca 
entre a corda do barco 
e a rocha. 

Eu fui o que não sou. 
Depois que inventaram o inconsciente, 
a verdade fica sempre para depois. 

... 

A mãe orquestrava a horta. 
Reservava espaço para ervas daninhas 
e seu alfabeto de moscas. 
Não mexia na ordem de Deus. 
Louvada seja 
a esmola de uma hortaliça. 

... 

Acerto o relógio pelo sol. 
Percorro as dez quadras 
de meu mundo. 
As ruas são conhecidas 
e me atalham. 

... 

Meu medo se interessa por qualquer ruído. 
Hoje quero alguém para conversar enquanto dirijo, 
baixar os faróis em estrada litorânea, 
enxergar pelas mãos. 

... 

Fazer as coisas pela metade 
é minha maneira de terminá-las. 

Os poemas aqui publicados integram o livro inédito Cinco Marias.

sobe